sábado, 19 de dezembro de 2015

Quando se corre na sauna

Já faz algum tempo que não escrevia nada no blogue. Tal deveu-se ao pouco tempo disponível para tal. Para compensar hoje sai uma coisa mais composta.

Ora durante o último mês estive fora de Portugal, mas concretamente fui para o Brasil em trabalho (para o bronze?). A estadia foi maioriamente na zona do Rio de Janeiro.

Depois de quase 9 horas de viagem e de me ter instalado no Rio fui fazer um treininho para desentorpecer as pernas. As diferenças para aquilo que estava habituado em Portugal eram óbvias pelo menos 27 ou 28 ºC de temperatura e muita humidade.

A primeira semana custou. Por mais lento que fosse sentia sempre que ia a puxar demasiado. Após cada treino e até à hora do almoço beber cerca de 2.5 a 3 litros de água não era incomum. A parte boa é que também havia água de coco à disposição.

Na zona do Rio onde eu estava (próximo de Copacabana e Botafogo) havia sempre os caminhos para os ciclistas que davam imenso jeito numa cidade onde parecem não haver grandes regras de trânsito. No fundo limitei-me a explorar toda a zona costeira da região fazendo uso destas ciclovias.

Na segunda semana da minha estadia havia um feriado duplo que começava a uma quinta. Decidi que iria usar esses dias para conhecer alguma região diferente. Mas como escolher o sítio? Toca a ir à lista de corridas e ver qual a que fica numa região que valha a pena visitar! Ficou assim escolhida uma das estapas do Circuito Fluminense de Montanha na região de Paraty. Depois de cerca de 6 horas de viagem para cobrir os cerca de 160 km de distância cheguei à cidade.

No dia antes da prova achei por bem tentar descansar ao máximo e foi isso que fiz.

Descanso activo!
No dia da prova mais uma viagem de cerca de 1 hora pelos caminhos rurais para chegar ao início da mesma. Como os autocarros para o sítio eram poucos cheguei cerca de 3 horas antes da prova o que me deu para me inteirar sobre a a mesma.

Esta fazia parte de um conjunto de corrida de trail da região e que vai rodando por todo o estado do Rio de Janeiro. Tentei ir saber mais detalhes do percurso e foi quando me disseram que era das provas mais técnicas e que tinha 2 subidas muito duras.

"Muito técnicas? Deve ser parecido com as de Portugal!". O problema era que tinha chovido torrencialmente na manhã desse dia e nos dias anteriores, tanto que a povoação estava ainda sem luz. Comecei a ver que toda a gente ia artilhada com equipamentos e especialmente com ténis de trail e eu comecei a desconfiar que os meus de estrada se calhar não iam ser os mais indicados... Mas também já não havia nada a fazer.

O meu objectivo da prova era basicamente fazer um treino mais durinho. Devido às condições que encontrei no Brasil não me precocupei em fazer treinos muito específicos. Basicamente foi rolar à vontade e de vez em quando abrir um pouco a passada no final dos treinos. Coisa interessante era que nos treinos sempre que ia para ritmos próximos dos 4:00 estava quase sempre a morrer, onde tudo me doia e não sabia porquê.

Depois de um mini-aquecimento começou a prova que continha 3 dentro de si: uma com 8 km, outra com 16 e outra com 24 km. A malta dos 8 arrancou forte e começou a esticar o pelotão. Dei por mim a seguir com eles sem problemas, até à zona onde eles seguiam por outro caminho.

Aí, mantive-me no grupo da frente e começaram as primeiras variações de terreno, mas até aí tudo fácil porque estavamos em terra batida. Ao fim de cerca de 5 km começamos a viragem para a entrada na mata Atlântica.

Aí sim, começou a doer. Cerca de 1 km de subida com inclinação média superior a 30%. Acho que corri uns 2 passos e acabou. Não dava. Além disso começou o meu outro problema a falta de aderência dos ténis ao terrenos. Depois de uns longos 12 minutos para fazer a subida chegámos a terreno mais fácil. E uma coisa me ficou a soar nos ouvidos que me disse um dos atletas que estava comigo na subida "Moço, você na descida vai-se ferrar".

Não tardou muito para ver ao que ele se referia. Depois de na parte menos técnica ter recuperado a distância que perdia na subida vieram a parte das descidas técnicas. E se quando são descidas fáceis já tenho pouco jeito, quando estas são a pique, com pedregulhos ou troncos no meio e ainda com a lama toda tipo barro lá metida não ia certamente ajuda.

Enquanto tive gente perto de mim não perdi muito tempo. Basicamente foi confiar no percurso que eles estavam a fazer e esperar que fosse correr bem. Mas de cada vez que fica no limbo entre ir com a boca ou chão ou sair do trilho e ir ribanceira abaixo perdia distância e confiança.

Assim foram cerca de 2 a 3 km, sempre com muito menos e com uma brutal inaptidão para o tipo de percurso. Na parte final desta secção, aconteceu o que eu esperava: queda. Quando estava a ir mais solto, acho que me entusiasmei um pouco e lá fui eu a deslizar uns bons 3/4 metros pelo chão. Garrafa de água perdida, mas não esperei. Levantei-me o mais depressa possível e continuei a correr para ver se a dor da queda não se manisfestava e isso acabou por ser um boa decisão.

Daí em diante foi tentar ao máximo recuperar o muito tempo perdido na descidas e a verdade é que até o consegui fazer. A sorte foi que deixou de haver tantas zonas com descidas técnicas pois o percurso era mais a subir. No entanto, sempre que essa subida era mais complicada lá ia eu a passo de caracol para não me espalhar novamente.

Antes da última subida grande do dia, via novamente o caso mais parado. Tínhamos de passar por um pedra a 45º bem lisa e com água a correr por cima dela. Lembro-me de pensar algo do género "Aquilo pode ser perigoso". Depois de metade da pedra já ter sido passada, o pé escorrega-me e fico agarrado só com as mão ao topo da mesma e com os pés a tentar puxar-me para cima. Não foi bonito mas acabei por me conseguir içar. Nem cerca de 30 segundos de eu ter saído daquela posição já lá estava outro desgraçado em igual figura. Penso que tal se deveu à muita chuva que cai fazendo transbordar o riacho naquela zona e que a organização não esperaria tal coisa.

Uma das partes boas desta prova é que nos permitiam passar po praias inacessíveis a não ser de barco, em zonas de uma tranquilidade tal que não havia onde e onde apenas se escutavam os animais da floresta. Valeu muito a pena por isso.

Quando faltavam cerca de 2 km para o final última subida do dia: novamente cerca de 1 km com inclinação médica de 30 a 35%. Aqui também não foi bonito. Tive a sorte de apanhar um atleta que fez o favor de indicar o melhor caminho na subida e novamente foram cerca de 12 minutos até acabar esse km.

Ora e se era 1 km a subir, faltava 1 km para terminar e aí era a mesma inclinação da subida, mas negativa. E aqui a minha táctica foi simples: ir a correr ribanceira abaixo até chegar a um árvore e agarrar-me a ela. Nada mais que isso. O problema é quando não haviam árvores grandes e me agarrava a um tronco que estava podre...

Foram outros 12 (!) minutos para fazer uma descida que num dia normal era para fazer em 1/4 do tempo! Mas se querem ver o meu jeito a descer basta atentar para a fotos abaixo relativas à descida final.
 


Todo um jeito a descer (foto de Corridas de Montanha)
E pronto, no final deu um 10º lugar da geral e um 1º do escalão. Não fossem outras condicionates (principalmente falta de ténis adequados a este tipo de provas) e teria lutado pela geral até ao fim como me disseram no final da prova.

1º lugar do escalão 
Depois foi regressar à civilização e continuar a treinar debaixo do calor abrasador do Rio. No final deu cerca de 3 a 4 kg perdidos (sendo que já estou no processo de os recuperar) e uma nova tonalidade de pele.

Agora em Portugal está este calor esquisito e água da torneira gela-me as mãos.

Amanhã farei a minha 1ª prova de estrada da época. Será para aferir o meu estado principalmente, pois ainda não comecei a fazer outra coisa que não treinos de corrida contínua.

Até à próxima, bons treinos e melhores corridas!

João